Achou estranho o título? Torceu o nariz para a ortografia do meu nome? Chegou a conclusão de que quem escreveu essa frase tem outro problema pior que o meu vício em chicletes ?
Se sua resposta foi não para todas as perguntas acima, você está no lugar certo. Se foi sim, você também está no lugar certo! Afinal, este lindo país varonil é livre. Mas, assim como você tem direito a ter sua opinião, eu tenho direito de tentar mostrar pequenos "furos" nessa ideia preconceituosa de que "quem fala pobrema tem dois problemas".
Estreando meu primeiro post no Pequenas Doses Linguísticas, falarei brevemente sobre a rotacização do L em encontros consonantais.
O que raios é rotacização? Eu tinha que começar com nomes difíceis? Tinha, por que esse lindo fenômeno é o responsável pela transformação do "L" em "R" em encontros consonantais. Essa "inversão da fala do Cebolinha" ( pra quem não sabe, ou não lembra, Cebolinha é o personagem de Maurício de Souza que troca os /r/ por /l/) é uma tendência natural da língua portuguesa, sabia?
"-Ah, mas que absurdo, Clara! Você está me dizendo que é normal falar 'broco' ao invés de 'bloco'? Isso é coisa de analfabeto, de gente que mora na roça, etc.! Eu nunca falaria assim!"
Aí é que você se engana, prezado leitor! Voce não só falaria assim, como fala, de certo modo. Sabia que há diveeeersas palavras na nossa língua que possuem encontros consonantais com R, mas que, em sua origem, possuíam encontros consonantais com L?? Verdade! Veja estes exemplos:
Viu que curioso? Nas outras línguas latinas, como o francês e o espanhol, o L permaneceu. Na nossa amada língua não! Se sclavu virou escravo e fluxu virou frouxo, nada mais natural que chiclete vire chicrete e bloco vire broco! Essas mudanças naturais da língua não são erros, e sim variações. Não estou dizendo que isso vai acontecer, com certeza e data marcada. Estou apenas mostrando que o rotacismo é um fenômeno natural da língua, tão natural que até mesmo clássicos da literatura como José de Alencar e Luís de Camões "aderiram" ao "froco" (em O Guarani) e ao "ingrês"( VI, 47 de Os Lusíadas).
Como diria o mestre Marcos Bagno, nada na língua é por acaso. Há um motivo para essas e outras milhares de variações existirem. É por isso que devemos nos informar - e muito - antes de qualquer julgamento.
Sejam eles linguísticos ou não.
Espero vocês no próximo post!
Abraços,
Clarinha
P.S.: As informações contidas neste post, bem como a tabelinha com as palavras em latim, francês, espanhol e português, vieram destes dois livros do professor Marcos Bagno:
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Se sua resposta foi não para todas as perguntas acima, você está no lugar certo. Se foi sim, você também está no lugar certo! Afinal, este lindo país varonil é livre. Mas, assim como você tem direito a ter sua opinião, eu tenho direito de tentar mostrar pequenos "furos" nessa ideia preconceituosa de que "quem fala pobrema tem dois problemas".
Estreando meu primeiro post no Pequenas Doses Linguísticas, falarei brevemente sobre a rotacização do L em encontros consonantais.
O que raios é rotacização? Eu tinha que começar com nomes difíceis? Tinha, por que esse lindo fenômeno é o responsável pela transformação do "L" em "R" em encontros consonantais. Essa "inversão da fala do Cebolinha" ( pra quem não sabe, ou não lembra, Cebolinha é o personagem de Maurício de Souza que troca os /r/ por /l/) é uma tendência natural da língua portuguesa, sabia?
"-Ah, mas que absurdo, Clara! Você está me dizendo que é normal falar 'broco' ao invés de 'bloco'? Isso é coisa de analfabeto, de gente que mora na roça, etc.! Eu nunca falaria assim!"
Aí é que você se engana, prezado leitor! Voce não só falaria assim, como fala, de certo modo. Sabia que há diveeeersas palavras na nossa língua que possuem encontros consonantais com R, mas que, em sua origem, possuíam encontros consonantais com L?? Verdade! Veja estes exemplos:
Viu que curioso? Nas outras línguas latinas, como o francês e o espanhol, o L permaneceu. Na nossa amada língua não! Se sclavu virou escravo e fluxu virou frouxo, nada mais natural que chiclete vire chicrete e bloco vire broco! Essas mudanças naturais da língua não são erros, e sim variações. Não estou dizendo que isso vai acontecer, com certeza e data marcada. Estou apenas mostrando que o rotacismo é um fenômeno natural da língua, tão natural que até mesmo clássicos da literatura como José de Alencar e Luís de Camões "aderiram" ao "froco" (em O Guarani) e ao "ingrês"( VI, 47 de Os Lusíadas).
Como diria o mestre Marcos Bagno, nada na língua é por acaso. Há um motivo para essas e outras milhares de variações existirem. É por isso que devemos nos informar - e muito - antes de qualquer julgamento.
Sejam eles linguísticos ou não.
Espero vocês no próximo post!
Abraços,
Clarinha
P.S.: As informações contidas neste post, bem como a tabelinha com as palavras em latim, francês, espanhol e português, vieram destes dois livros do professor Marcos Bagno:
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| A língua de Eulália: Novela Sociolinguística |
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| Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. |



